Crítica: Sai de Baixo – O Filme consegue divertir fãs e também quem não conhece o seriado

Orth, Falabella, Balabanian, Protásio, Cavalcante e Canoro em cena – Foto: Reprodução/Divulgação

A sitcom Sai de Baixo, estrela da programação de domingo na Rede Globo, é um dos melhores pedaços da televisão brasileira nos anos 90.

A ideia do seriado, que começou em 1996 e foi até 2002, partiu inicialmente de Luis Gustavo e Daniel Filho, e foi uma febre durante todo o período de sua exibição.

Depois do Fantástico, o país parava para assistir a família mais tresloucada do Arouche. Chegou ao fim por simples esgotamento da fórmula, e também por não contar mais com elenco original afiadíssimo. Somente Miguel Falabella, Marisa Orth, Aracy Balabanian e Luis Gustavo permaneceram até o fim.

Após um ensaio de comeback em 2013, quando quatro episódios inéditos foram gravados para exibição no Viva, finalmente temos uma história que junta, na medida do possível, o melhor que essa história poderia nos oferecer. Sai de Baixo – O Filme, antes de mais nada, é uma celebração à nostalgia.

Pôster de Sai de Baixo – O Filme – Foto: Reprodução

Filme do Sai de Baixo: O importante é se divertir

Em Sai de Baixo – O Filme, temos Cassandra (Balabanian), Magda (Orth) e Caquinho (Rafael Canedo) morando de favor no quarto de empregado que Ribamar (Tom Cavalcante), o porteiro do prédio onde a família teve o tão conhecido apartamento, que agora está à venda por ter sido hipotecado por Caco (Falabella), que está preso há dois anos.

Ribamar divide seu apartamento com Cibalena (Cacau Protásio), uma pedicure expansiva e exagerada, e sua tia, chamada Dona Jaula (também Cavalcante).

Tudo parece perdido quando Caquinho fecha um pacto com Angelina (Lúcio Mauro Filho) e o juíz Nicolau (Castrinho), oferecendo à família a oportunidade de ganhar um bom dinheiro ao ajudá-los a tirar 200 milhões de dólares em pedras preciosas do país através de uma falsa excursão ao Pantanal. Para isso, eles recriam a VavaTur, icônica empresa de turismo de Vavá (Gustavo).

O desenrolar da história da família nas telas do cinema causa certa estranheza nos primeiros minutos. Quem acompanhou a sitcom pela TV nos anos 90, com platéia e tudo, fica um pouco desacostumado ao ver os personagens na rua, interagindo fora do espaço do apartamento. Entretanto, dez minutos depois essa estranheza desaparece.

Entramos de cabeça na história absurda, escrita pelo próprio Falabella: o roteiro não faz sentido nenhum, e frequentemente envolve a quebra de quarta parede – eles não olham diretamente para a câmera, mas todos ali têm consciência de que tudo é um filme, e o que vale é se divertir.

E como se divertem: todos os coadjuvantes estão muito bem. De todos, o que menos empolga é o Caquinho interpretado por Rafael Canedo, cuja formalidade soa deslocada nas cenas quase surrealistas que se desenvolvem ao seu redor.

Só pela metade do filme ele abraça a galhofa e entra na brincadeira. Protásio também parece estar adorando participar na pele de Cibalene, a namorada de Ribamar. Esse arco dramático ainda ganha a adição de Sunday, interpretada por Katiuscia Canoro com bastante competência.

Os tempos são outros

No entanto, o elenco principal mantém a química que garantiu o sucesso da série no passado. Miguel Falabella e Marisa Orth continuam afiadíssimos como Caco e Magda, um dos casais mais icônicos de nossa televisão. No filme, com mais liberdade para falar palavrões do que na TV, eles se soltam e fazem o público rir com algumas piadas pavorosamente ruins – mas que tão péssimas, soam engraçadíssimas.

Esse é o poder do roteiro escrito por Falabella: ele parece ter a consciência de que os tempos são outros, o humor já não é mais a mesma coisa, e usa isso a favor do filme. Balabanian e Gustavo aparecem pouco, mas fazem valer a espera: ela, principalmente, tem uma cena que envolve seu conhecido “cabeção” – e mais uma vez, uma graça com o público.

A volta de Tom Cavalcante ao personagem que definiu sua carreira passada, mais até do que o João Canabrava que ele interpretava na Escolinha do Professor Raimundo, se deu em grande estilo. Ribamar continua com o humor moleque, infantil, com piadas toscas e as famosas caretas do humorista.

Suas melhores cenas no filme, porém, estão na personagem Dona Jaula, que só pode ser definida como perua. Uma cena dela no banheiro de Angelina – feito por Lúcio Mauro Filho também em papel duplo, já que também faz o perigoso irmão de Angelina, apelidado de Banqueta – é uma das melhores do filme e mostra que Cavalcante ainda tem o domínio da comédia física.

Marisa Orth, Tom Cavalcante, Miguel Falabella e Luis Gustavo – Foto: Reprodução/Divulgação

Sai de Baixo – O Filme, enfim, parece estar constantemente piscando o olho para o público, como quem diz “isso tudo que você está vendo é armação, não leve nada a sério”. A direção de Cris D’Amato é esquemática e lembra qualquer seriado de comédia da Globo, sem trazer nenhum frescor ao formato. Entretanto, quando se fala de Sai de Baixo, talvez tenha sido uma atitude correta. O enredo e os personagens estão tão presentes em nossa memória afetiva que é impossível vê-los fora da televisão, mesmo que o veículo agora seja outro. E como é bom revê-los juntos e mantendo a fervorosa química de antes.

A cena final evidencia duas coisas: a) teremos um segundo filme em uma provável franquia e b) tudo é uma grande farsa – vemos Caco, Magda, Cassandra e companhia como se eles nunca tivessem saído do palco do teatro onde a atração era gravada.

Quem não acompanhou na época vai, com certeza, se divertir se souber entender a anarquia da história, onde o roteiro importa menos que a atuação (pode ser que muitos não “peguem” isso e achem o filme mediano). E quem já é familiarizado com as histórias dos sujeitos mais doidos do Largo do Arouche não terá do que reclamar. Encontrará aqui uma boa dose de nostalgia, e também a certeza de que esses personagens funcionam em qualquer situação, em qualquer formato. Que voltem o quanto antes: o público certamente vai querer mais.